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O Hissope
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A SOCIEDADE SETECENTISTA N’O HISSOPE DE CRUZ E SILVA

 

Na esteira dos poemas herói-cómicos Le Lutrin, de Boileau (1672) e The Rape of the Lock, de Alexander Pope (1712), O Hissope, de António Dinis Cruz e Silva, publicado em Londres já em 1802, insere-se na vertente satírica do Iluminismo, no âmbito do seu projecto de crítica universal, como sublinha Paul Hazard: "C’est bien la critique universelle: elle s’exerce dans tous les domaines, littérature, morale, politique, philosophie; elle est l’âme de cet âge quereleur; je ne vois aucune époque òu elle ait eu des représentants plus illustres, où elle se sait plus généralement exercée, où elle ait été plus acide, avec ses airs de gaieté".

É esta ácida ridicularização, com ar de alegre paródia que se respira ao longo de todo o poema, estribada na sátira horaciana, de cujo livro IV a editio princeps transcreve dois fragmentos. Apesar da benignidade não radical dos críticos iluministas, fazendo lembrar a aurea mediocritas horaciana (Paul Hazard chama-lhe "bonheur de sécheresse [ ¼ ] . Volupté, charme de la vie", "une certaine façon de se contenter du possible, sans prétendre à l’absolu"), O Hissope não deixa de se inscrever nos parâmetros gerais de uma matriz cultural humanista, sendo inseparável, portanto, no realismo teórico que herda de Boileau ("rien n’est beau que le vrai"), da problematização pedagógica dos esquemas mentais imperantes na Europa da época, proposta por um Voltaire (por exemplo, contra o optimismo leibniziano, em Candide) ou por um Swift, tão envolvido na bruma misantrópica das viagens de Gulliver.

Moldura da sátira iluminista à mesquinhez humana, a sociedade setecentista portuguesa é representada neste poema herói-cómico com forte relevo e expressividade através da pluralidade das suas instituições e elementos culturais: festas e jogos; alimentação e bebidas; habitação, transportes e vestuário; livros e autores; língua e literatura; filosofia e oratória...

FESTAS E JOGOS

A dimensão festiva e lúdica da sociedade setecentista está bem patente nesta paródia de Elpino Nonacriense.

Logo no canto I, o poeta, entroncando o nascimento da Moda no "grão país" das Quimeras, "Nos vastos intermundios de Epicuro", satiriza a futilidade dos "vaidosos mortais", situando ao mesmo nível "as vàrias formas / De sèges, de vestidos, de toucados, / De Jogos, de Banquetes, de Palavras:/ Unico emprêgo de cabeças ôcas".

Criticando asperamente o teatro barroco, na sequência da poesia gongórica, o poeta neoclássico ironiza ("cousa piedosa!") o desterro indigno de Melpómene e Talia, tiranicamente ordenado pela "insipida Burletta".

Na grande corte do "Genio tutelar das Bagatelas", entre a "Lisonja", a "Excelência", a "Senhoria", o "Dom Surrado" e as "grandes Cortesias", sentam-se "aos pés do trono" os jogos mais famosos como o "Wisth" e o "trinta e um".

No canto II, a ironia volta a atingir o jogo como modo exemplar de passatempo ("jogando exemplarmente"), em alternância com as "lautas mesas" e o sono, enquanto a Senhoria apresenta o jogo do whist como uma das características das casas burguesas, onde deseja continuar a ter "entrada livre". Por sua vez, a Discórdia, excitando "mil disputas" entre o prior e os frades dominicanos, "sobre o Jôgo, e sobre os Dôces, / Que aos Tafues, com mão larga, dà na célla", faz reclamar alguns "Que, por jogar o Wisth e dar merendas, / As rendas dissipava do Mosteiro", enquanto o "santo prelado", sem se preocupar com tais desvarios, "todo cheio / De exemplar paciencia e de modestia, / Vociferar os deixa, - e vài jogando". É ainda a Discórdia que, "na figura / Da velha e carunchosa Ama", refere entre as qualidades do cónego deão o hábito de dar recepções sociais: "Que jòga o Trinta e um, e màis o Wisth, / Que Chà, e que Assemblèa dà em Caza".

No canto IV, tomando conhecimento do "sinistro Accordão" contra si proferido, segundo o qual "seja obrigado / Della em virtude, a desistir da força / Que ao bom Prelado faz na sua pòsse, / Fulminando-lhe mulctas, e outras penas" , o "soberbo deão", ao ganhar "um real róber" na sua casa de campo, deixa subitamente cair "Das mãos as cartas", declarando com raiva desistir do ideal epicurista a que se tinha proposto ("Comer, jogar, dormir, e divertir-me") e, em vez da paz, mover a guerra. E o "aflito deão", em resposta ao "gritador Fernandes" que o consola, ao despertá-lo para o combate astuto e sagaz ("Que quem litigios tem, e quér vence-los, / Deve tudo attentar, e ser espérto"), apresenta a sua habilidade no jogo um exemplo de tais qualidades: "Muitas vêzes, no Wisth, estando a nóve, / Na segunda partida, os meus Contrarios, / De táes artes me valho, tais marânhas, / Que naõ tendo màis que um, lhes ganho o ròber".

E, enquanto a Excelência aconselha ao "gordo bispo", no canto VI, que "Mande chamar alguns Capitulares, / E, com elles, em sancta paz, jogando, / O résto passe da calmosa tarde, / E naõ queira, com van temeridade, / A seu gôsto a rasaõ sacrificando, / Desafiar a chólera dos Astros", no canto VIII, a suspensão do jogo e a abstinência de estimulantes constituem sinais de visível depressão perante o agouro do "fatal galo" que na "infausta ceia "invectivou o "cruel deão" (canto VII): "Entre tanto o Deaõ confuso, afflicto / Passava as horas, na memoria tendo / Do lardeado Gallo o infausto annuncio. / Pouco e pouco, a cruél Melancholîa / O devóra, e consóme; naõ graceja, / Como d’antes usava, co’a familia: / Mas, em seus pensamentos abysmado, / Comia pouco, pouco repousava; / Nem joga; nem Caffé, nem Chà bebîa".

Por seu turno, são dois os banquetes que, de um lado e de outro das posições contendoras, solenizam a sociedade que é patenteada na intriga d’O Hissope.

O primeiro, no canto III, tem como finalidade expor aos capitulares o projecto episcopal sobre a afronta do deão. Apesar do gesto caritativo da repartição de "Um caldeirão de caldo" "A cem pobres", a sátira à "insaciavel Gula" dos convidados é sublinhada pelos adjectivos que descrevem a mesa ("sobêrba", "lauta") e pelo número simbolicamente hiperbólico das peças que compõem as iguarias: "Cem Perdizes, cem Pombos vem voando, / Cem especies de môlhos, cem de assados, / [ ¼ ] Mil fructas, mil corbélhas, mil compótas".

O segundo, em casa do deão, celebra ironicamente, no canto VII, "nomes e manhas" de uma representativa galeria de altos varões da sociedade local: agiotas, como o "moço Sequeira"; avaros, como "o velho Torres e o "potroso do Saldanha"; vaidosos, como o "mulheril Perinha"; glutões, como o "tolo Aguilar" ou o "bom Alarve". Apesar da insólita cena da invectiva do "velho galo" ao "cruel deão", que levou os convidados à esconjura do "fatal galo" e ao abandono da "infausta ceia" ao "demo", o ambiente festivo orna tal banquete com a presença musical de uma "Sonnata / De Cravo, de Machêtte, e Castanholas" e de um duo cujas virtualidades excedem hiperbolicamente as actuações operáticas dos teatros de Milão, Veneza, Nápoles e Florença. O mesmo se diga do brilho cintilante dos "doirados cristais", dos "finos pratos" e da "radiante luz de cem bugias". "Mil chistes, mil apodos, mil pilherias" animam incessantemente as conversas à mesa, tendo como alvo o bispo elvense, como quem malha "em ferro frio". Na caracterização musical deste ambiente festivo destacam-se a écphrasis dos embutidos de marfim e pau santo em faia branca de uma bandurra, figurando as folias de Baco, e a transcrição do hino de louvor à cidade, na "voz agalegada do Malifa".

 

ALIMENTAÇÃO E BEBIDAS

Alterando profundamente os bábitos alimentares das classes privilegiadas, a Expansão introduz em Portugal as marcas mais visíveis da presença cultural das praças exóticas. Convivendo com os produtos europeus, como o "bom vinho de Málaga , o da Madeira (c.VI), o de Borba (c. V) e o "presunto / Da célebre Montanche", o chocolate de Caracas, o "graõ Chà de Pekin e lá da Mèca / O cheiroso Caffé" enchem as "lautas mesas" dos dignitários eclesiásticos, no canto II, juntamente com "as galinholas, / As perdizes, a rola, o tenro pombo".

No canto III, na "soberba mesa" do prelado elvense a sinestesia dos manjares provoca a "insaciavel Gula" dos convidados, numa "profusão tamanha das iguarias" que as metáforas da chuva e do voo e a hipérbole dos números cem e mil intensificam com apetitoso sarcasmo: "cem Terrinas, / O vapor mais suave derramando"; "Cem Perdizes, cem Pombos vem voando; / Cem especies de môlhos, cem de assados, / Grandes Tortas, Timbales, pasteis, cremes [ ¼ ] A cabeça não falta de Vitélla, / Nem do gordo animal a curta perna, / Cozida em branco leite ou doce vinho; / Mil fructas, mil corbélhas, mil compótas / A terceira coberta logo adornam, / E em dourados cristáes, oh louçaõ Baccho / De tuas plantas brilha o rôxo sumo", sem esquecer o "queijo de Parma".

Em contraste, no banquete do canto VII é parca a descrição da "recheada mesa", já que a sátira, excepção feita à cena da invectiva do "velho galo", "Entre frângãos e pombos lardeado", volta-se agora copiosamente para a galeria caricatural das ilustres figuras elvenses.

Mas, no canto IV, a mesa posta pelos criados do "farfante deão" numa casa de campo expressa bem o teor de uma rotineira ceia, por sinal rejeitada em razão de "seu decoro / Atrozmente ofendido": "os gôrdos / E tenros Perdigôtos, a sellada, / A fructa, o vinho, os doces".

Em contrapartida, no canto V, ao relatar os doze trabalhos de Hércules, o padre-mestre dos Capuchos, "Ex-guardião, ex-leitor e ex-jubilado", queixa-se do bacalhau, "e talvez podre" do refeitório conventual, vendo-se obrigado a trinchar uma galinha na sua cela. No entanto, não faltam, entre os "cem padres graves" "Do gordo badulaque ex-cozinheiro, / Na fumosa Cuzinha, entre as tisnadas / Certans fuliginosas e marmitas, / Com grande gloria sua jubilados".

 

HABITAÇÃO, TRANSPORTES E VESTUÁRIO 

Apesar do assunto da intriga, os espaços cénicos da acção do poema pouco incidem, talvez por respeito religioso, na área sagrada da catedral de Elvas, preferindo as casas do deão, por oposição ao paço episcopal, e o convento dos Capuchos.

Efectivamente, no canto III, "o grave carrilhão de vinte sinos "rompe os ares na "alta torre", convidando "à grande missa" que o bispo, no altar-mor, depois de se paramentar na sacristia, cantará, "em contrabaixo", "confuso" e "sem saber o que diz".

Nas casas do deão, o canto II identifica "um mole sofá", instalado na "grande sala", enquanto o canto IV apenas alude ao leito e à cadeira onde "Por algum tempo recostado fica". Por sua vez, o canto VI, além de situar na "vaga sala" o banquete para onde são convidadas "Do clero e da milicia cem pessoas", também refere a razia que atinge a "grande capoeira".

No paço episcopal, o canto III focaliza simplesmente a "soberba mesa" com "dourados cristais" e a cozinha onde é servido o caldo aos pobres.

O luxo das "Cazas armadas de Damasco / Ou de pannos deraz", onde se serve o chocolate "Na ricca, transparente porcellana" é genericamente referenciado no canto II como o espaço privilegiado onde a "sublime Senhoria, / Idolo de Pelões e de casquilhos" tem entrada livre.

Mas é o jardim do convento dos Capuchos que é profusamente descrito no canto V, com as suas "areadas ruas, as Estatuas, / Os Buxos, os Craveiros, as Latadas / De mil flores cobértas".

Dos meios de transporte apenas a "ricca" liteira episcopal figura expressamente neste poema, guiada por "Dois lacaios membrudos e possantes", no compasso ritmado de uma "lenta e preguiçosa marcha" de "grandes machos" (canto VI). A écphrasis de "Vénus pintada / Sobre um globo de tenros Cupidinhos, / Qual ao mancêbo Adònis ou a Páris, / Na Idalia sélva jà se appresentara", representa a sátira irónica ("Com modestia exemplar") à provocante luxúria do alto clero.

Mais pormenorizada é, porém, a colecção dos trajos das personagens focalizadas.

A "loba de seda" da "principal figura do cabido" simboliza a sua grande dignidade, no discurso interpelante da Discórdia, disfarçada na "velha e carunchosa ama" (canto II). Após a "celeste visão" da Senhoria, manda preparar, "Em sinal de prazer" "As meyas gris de fer, e mais as luvas, / A Cazaca de seda, e mais a Cappa" , não deixando, mais tarde, no contágio da preguiça, de ceder à tentação de abdicar de lutar, na linguagem metafórica do vestuário simbólico perdido: "O vestido de seda, a lôba, a murça, / Pela agua abaixo và, tudo se pérca, / Com tanto que eu naõ pérca um só instante / Dos meus suaves, regalados somnos".

De modo idêntico, o "famoso Bastos", ao receber a convocatória para a reunião dos cónegos já discorre ufanamente com a eventualidade de se distinguir "da baixa plebe / Dos vis Beneficiados": "Que de verde forremos as batinas / E que Chapéo azul, com bórlas brancas, / Tragemos na cabeça" . A "rôxa murça", por sua vez, também evoca, na expectativa do "douto Acúrcio" o "Digno prèmio das suas gordas lettras". No entanto, a reforma talar efectuada pelo "douto prelado" nas "grandes capas" dos "antigos franjados alamares / Que a mòda jà ridiculos tornara" é apresentada no discurso do cónego Abreu como fruto do seu zelo de actualização pastoral.

A sátira do deão ao gosto francês anima o humor do canto V, ao repudiar não só o tratamento de monsieur e madame aos deus e heróis gregos, esculpidos no jardim dos Capuchos, mas também o seu vestuário e penteado.

Entre as figuras grotescas do banquete do canto VII desfila o avaro Saldanha que, adornando-se do "vestido Domingueiro", "Sobre uma véstia branca airoso traja / Cazaca que foi nêgra há quinze lustros; / Os Calções eraõ pardos, e os sapatos, / As meyas, e espadim, e os outros cabos / Em nada do vestido desdiziaõ".

E entre os argumentos usados para persuadir a mulher quanto à necessidade de prestar ao deão os seus serviços o "grande e intrépido Gonçalves" não encontra outro mais dirimente do que o dinheiro necessário à compra dos apetrechos da moda feminina: "A Saya, a Cappa, a fita, o Léque, o Pente" .

 

LIVROS E AUTORES

 A panóplia de livros e autores das várias áreas do saber invade o discurso satírico d’O Hissope, cravejando o poema de uma rica e vasta colecção de gemas que ornava a minoria culta da época e dificultando o seu acesso ao leitor de hoje.

No canto III, autores canonistas como Bertachino, Granha, Tamborino, Escolano, Sapada e Pichler são ridicularizados como "flor e honra / Da rançosa, indigesta Livraria". Os seus livros, ainda que de "de grossos tomos", não são gerados por qualquer "Author de arromba". Mas, mesmo assim, a ignorância do leitor eclesiástico, "Que nada entende do que està escripto", impede qualquer aproveitamento de tão inúteis volumes, se bem que eventualmente enriquecidos com citações de duas novelas de sucesso, como A Roda da Fortuna, do padre Mateus Ribeiro, ou Cristais d’Alma, de frei António Escobar.

Aristóteles, o "Dialéctico Pharo", S.Tomás de Aquino e os moralistas do século XVII, Gonet, Busembaum, Lacroix e Guiménio, são autores lidos pelo cónego Ramalhete sem qualquer efeito aparente, já que, preocupado com questões famosas como "se um Burro póde / O Baptismo beber, ardendo em sêde", "Infére, grita, próva, e nada cólhe".

No canto IV, os autores nacionais ("o bom Panormitano", os "Fagnanos, / Valenças, Belarminos, Anacletos; / Esses sim, que são livros de mão-cheia") são liminarmente contrapostos pela ignorância do deão aos estrangeiros ("Van-Espen, Dupin, Bartholio"), "Que com sua doutrina a Igreja empestam". No entanto, aconselhando ao "deão farfante" a apelação à metrópole, o grão-jurisconsulto Fernandes não deixa de se rir, "Com punível despejo motejando", da descoberta feita pelos consagrados letrados, o "bom Febo", o "bom Mendes", o "bom Pegas", em relação a tal direito no espólio do foro romano.

Neste confronto nacionalista com autores estrangeiros, cujos nomes, como "Noodts", "Strachios" e "Zalweins", ainda que "galantes", são reputados de origem mourisca, pois que "na bocca não cabem, nem a lingua / Pode, bem que se afane, pronunciá-los", desfilam "famosos letrados" como "Palma, Decio, / Bártholo, Castro, e Baldo", "O grande Portuguez Cabral, Vanguèrve, / E o famoso Bremeu" e ainda o "moderno Campos" e "o nosso Ferreira", a propósito da apelação coram probo viro. Os que citam tais nomes, "Que cristãos nunca usaram", são sarcasticamente chamados "novos letradinhos à francesa".

Mas, numa visão profundamente antilivresca, que transcende qualquer óptica nacionalista, o canto VIII, no auge bélico da "grande apelação", relativiza o valor de todos estes autores: "Quantos rançosos livros, que jaziaõ / Sepultados em pó, meios-comidos / Da cruél e vóraz, maligna traça, / Tornaraõ outravez a vêr o dia!".

Em contraste com esta sátira à bibliografia jurídica, a literatura picaresca espreita no poema herói-cómico com o sorriso malicioso e burlesco, como, a propósito dos doze trabalhos de Hércules, recorda o deão com ávido prazer a leitura, "sendo inda Estudante, / Do Bacharel Trapaça e Peralvilho / De Córdova a història portentosa": "Que nunca, em minha vida, tenho ouvido / Cousa, que cà no goto màis me dèsse".

Reconhecendo, porém, sua ignorância "nas sciencias e nas Artes", o "farfante Lara", depois de desculpar com a falta de tempo ("pois meu emprêgo / Às Lettras applicar-me me naõ deixa, / Como meu gosto, e genio me pediaõ"), admite como leitura da sua preferência a Arte da Cozinha, obra da autoria do cozinheiro-chefe da Casa Real, Domingos Rodrigues, editada em 1680.

A própria incompetência profissional do "triste Luz" ("E de ser em seu fôro, mào Notario, / Ou péssimo Escrivaõ, que vàle o mesmo") e a sua inépcia musical ("que a honra goza / De toccar mal rebécca na Sé de Elvas"), é compensada pelo sujeito poético com a sua "profunda erudiçaõ, bebida / Nos Autos de Reinaldo e Valdevinos, / E do Infante Dom Pedro nas partidas, / Florisel de Niquéa, e outros livros / Da andante, da immortal Cavallaria".

 

LÍNGUA E LITERATURA 

O zelo vernaculista da Arcádia encontra n’O Hissope uma das suas mais veementes expressões.

A mais conseguida sátira ao francesismo é colocada na boca aparentemente ingénua do deão e na sábia eloquência do padre-mestre dos Capuchos. Ao sarcasmo do "saber francês" da parte do primeiro ("Que o Francez, para mim o mesmo monta, / Que a lingua dos Selvagens Boticudos") sucede da parte do segundo o irónico alarde dessa moda, constituída "sacramento", invectivando-se "Estes nóvos, ridîculos Authores" que, com "A mesclada dicçaõ, bastardos termos", "enfeitar intentaõ seus escriptos": "Oh tempos! Oh costumes! (diz o padre) / O saber Francez é saber tudo". A evocação da memória dos "Antigos / Lusitanos Varoês" e a sua natural reacção aos "mil termos e phrases Gallicanas" ("Segunda vez de pejo morreriaõ") constitui o melhor argumento tanto de elogio à "bella e fértil língua nossa, / Primogénita filha da Latina", como de apelo à sua pureza e vernaculidade.

Por seu turno, além da sátira antigongórica aos "Anagrammas, / Labyrinthos, Acròsticos, Segures, / E mil especies de medonhos Monstros, / A cuja vista as Musas espantadas, / Largando os instrumentos, se esconderaõ / Longo tempo nas grutas do Parnasso", o canto I ridiculariza quer os estereótipos da banalidade poética ("Do denso Pôvo que o pays povôa, / Uns com pròdiga maõ riccos thezouros, / A trôco d’uma Concha, ou Borboleta, / Ou d’uma estranha Flor, que represente / As vivas côres do listrado Iris, / Dispendem satisfeitos"), quer o pseudo-eruditismo gramatical ("Outros passaõ / Sem cessar, revolvendo noite e dia / Do antigo Làcio antigos manuscriptos, / Do roaz tempo meio consumidos, / Para depois tecer gròssos volumes / Do =H= sobre a pronuncia; ou se se dève / A Conjunçaõ unir ao Verbo, ou Nome, / Que marchaõ antes d’ella no discurso"), quer a servilista dependência dos poetas aos políticos e mecenas ("Alguns (mîsera gente!) inutilmente / Compoem grandes Illiadas e técem / Aos vaidòsos Magnatas, mil Sonnettos, / Mil Pindàricas Odes, e Epigrammas, / A que apenas de olhar eles se dignaõ").

 

FILOSOFIA E ORATÓRIA

Ainda que ao sabor da paródia ao francesismo, o poema faz referência a três grandes filósofos europeus do século XIII, João Duns Scoto, Rogério Bacon e Raimundo Lulo: "É pasmar! ver, Senhor, como um Pascazio, / De Francez com dous dêdos, se abalança, / Perante os homens doutos e sizudos; / A falar nas sciencias mais profundas, / Sem que lhe escape a Sancta Theologia / Alta sciencia, aos Claustros reservada, / Que tanto fez suar ao grande Scôto, / Aos Bacónios, aos Lelios, e a mim proprio".

Mas, independentemente das referências aos filósofos e teólogos, a crítica, na linha de Verney, à "espinhosa / Escholàstica, van Philosofía, / Que os Claustros innundou e que abraçaraõ / Atè à morte os perfidos Solipsos" entronca num tópico recorrente da matriz iluminista, enquanto a leitura alegórica dos mitos clássicos, feita pelo padre-mestre dos Capuchos, constitui uma chave fundamental da significação do mundo: "Isto fabulas saõ, com que os antigos / Quiseraõ explicar aos seus vindouros / De muitos animàes a industria e arte" .

Por sua vez, o grande destaque concedido no canto VIII à cabala e às práticas supersticiosas representa uma sátira ao irracionalismo popular, aos olhos do poeta iluminista. O própio bruxo Abracadabro, reconhecendo a impotência de seus conjuros ante o "Fado inexoravel", isto é, o curso dos acontecimentos históricos, não deixa de interpelar "Com mófa e compaixaõ" o "Preguiçoso Deaõ, imbèlle e fraco", que desmaia ao conhecer o oráculo da perda da demanda. Tal crítica apresenta a mais inesperada e lúcida interpretação dos reveses da vida: "Ignóras tu acaso que as disgraças / Pedras de tóque são, onde os quilates / Das grandes almas sempre resplandecem?". Por outro lado, a linguagem bélica da "vingança" a partir do seu sucessor aponta não apenas para o direito de lutar pela reposição da Justiça oprimida mas também para o princípio iluminista da separação dos poderes espiritual e temporal: "Que dando ao Sacerdocio e ao Sceptro dando, / O que è do Sacerdócio, o que é do Sceptro, / Tem de ambos os podêres felizmente / As sagradas balizas assignado, / E defendem com prompta vigilancia / Da Real Jurisdiçaõ os justos termos; / Ao Bispo mandaraõ, por seu Decreto, / Que a razaõ deste excesso logo assine".

De resto, a própria figura mitológica do Génio tutelar das Bagatelas "que rège / A Lunàtica gente a seu arbitrio" e aos pés de cujo trono se encontram a "Lisonja", a "Excellencia", a "Senhorîa", "as grandes cortezîas", o "Vampirismo", os "Sortilegios" "E os outros Gènios da subtil Cabàla". Afinal, como nos poemas de Boileau e Pope, a questão que envolve o prelado e o deão mais não são, aos olhos de uma relativização iluminista, do que o culto às "bagatellas", às "cousas vans, ridîculas, e futeis".

Em último lugar, fazemos referência à breve sátira à oratória sacra da época. Em resposta aos sermões do padre Arronches, o deão não tem pejo de declarar nunca os ter ouvido, apesar da razão de ofício: "Em quanto o Padre grita estou dormindo; / Pois d’outra sòrte disfarçar não pòsso / A fóme, que me attáca a éssas horas". Para cúmulo do ridículo, chega a prometer desterrar os sermões da sua diocese, se for eleito bispo: "E se nelle inda achar quem tenha o flato / De pregar, lhe darei prompto remèdio: / Mandarei, que cumprindo seus desejos, / Và pregar aos Heréges, e Gentios, / Que o prémio lhe daràõ do seu trabalho". À semelhança também de Verney em relação aos poetas barrocos, que não os lia porque os não entendia, a razão invocada para esta rejeição é a da falta de inteligibilidade de tais sermões: "E escusem de quebrar-nos os ouvidos / Com uma însulsa, dilatada arenga, / Que ouve, por uso, o Pôvo e naõ entende". Em alternativa irónica aos sermões, pois, proclama o ousado e divertido deão a supremacia do estômago: "Sermões? -E quando quér jantar a gente? / A fòme só augmentaõ, causaõ somno".

 

CONCLUSÃO

Paródia denotativa ao alto clero ao melhor gosto vicentino, a ridicularização proposta nesta obra-prima da criação neoclássica portuguesa, de inspiração erasmista, constitui também uma abrangente metáfora à dicotomia servilismo versus vanglória, já verberada no Humanismo, em geral, e particularmente reassumida como essencial na mundividência iluminista.

Através de tal paródia perpassa o corpo e a alma da sociedade setecentista portuguesa, repartida entre as marcas de uma identidade própria e os arquétipos complexos e contraditórios da condição humana.

 

 ANEXO 

"Argumento - Jozè Carlos de Lara Deaõ da Igreja d’Elvas, querendo obsequiar o seu Bispo o Exmo e Revmo D.Lourenço de Lancastre, vinha offerecer-lhe o Hyssope à porta da Caza do Cabido, todas as vezes que este Prelado îa exercitar as suas funções na Sè. Depois, esfriando esta amizade por motivos que nos saõ occultos, mudou o ditto Deaõ de systema; ó que o Bispo sentio em extrêmo: como uma grande affronta feita a sua illma pessoa: e para o obrigar a continuar no mesmo obséquio, maquinou com alguns seus parciàes do Cabido, que este lavrasse um Accordaõ, pelo qual o Deaõ fosse obrigado, debaixo de certas multas, a naõ o esbulhar da pertendida pòsse, em que se achava. Deste terrivel Accordaõ appellou o Deaõ para a Metròpole, onde teve sentença contra si. Esta è a acçaõ do Poema.

Passado pouco tempo depois da referida sentença, morreu o Deaõ, e lhe succedeu no Deado um sobrinho seu, chamado Ignacio Joaquim de Alberto de Matos, o qual recusando sujeitar-se, como seu Tio, ao sobreditto encargo, foi pelo Bispo asperamente reprehendido, e ameaçado. Entam interpoz o mesmo um recurso a Côroa, cujo Tribunal mandando ao Bispo dar razaõ do seu procedimento, este cheio d’um terror pânico, desistindo da imagiuada pòsse, negou haver tal Accordaõ, e tudo quanto tinha obrigado a este respeito.

Tudo isto dà matèria ao Vaticinio de Abracadabro, e è um dos Epizodios de que se reveste o presente poéma" - Antonio Diniz da Cruz e Silva, O Hyssope, Poema Heroi-Comico, Em Londres, no anno de 1802, pp. Jiv e jv.